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  • Lady Brigitte

Quem sou eu hoje? Desde que comecei a dominar até aqui.




2021 foi um ano que virou o meu mundo de cabeça pra baixo.


Conversando com um amigo do meio que me conhece desde que eu comecei, ele me disse que olhando para trás via que eu mudei muito.


Quem me conheceu no começo de 2019 pode ver, assim como eu quando olho no espelho, que eu não sou mais aquela garota de cabelo descolorido e muitos quilos a mais. Mas ele não estava falando disso.


Ele disse que mudei mais no jeito do que na aparência, que eu não era mais a menina ingênua que ele conheceu, e eu ri, concordo piamente. Alguns dirão que eu ainda sou assim e falarão sobre a minha pretensão de conseguir enxergar mais do que as pessoas acham que eu vejo.


Só que eu vi tanta coisa que eu não queria ver esse ano, que eu quase assisti meu mundo ruir algumas vezes. Eu quase perdi a minha saúde por não escutar meu corpo, eu quase perdi meu pai pra covid, eu quase perdi a cabeça em meio a tantas decepções com pessoas que eu costumava conhecer.


Sei que não fui a única a perder nesse ano tão difícil e esse discurso de “mas eu aprendi…” não me convence mais, porque eu adoraria não ter perdido nada e continuar com o véu da ilusão sob os meus olhos que me fazia sempre sorrir até para quem queria me ver pelas costas.


Ainda assim, dizem que eu tenho muita sorte, e acho que tenho mesmo, não por ter um corpo desejado e saber fazer dinheiro com ele (como adoram dizer ao tentar desqualificar qualquer mulher que é bonita e inteligente).


Eu tenho sorte por ter sobrevivido a 2021 e a todo tipo de maldade humana, podendo rir dela ao lado de pessoas queridas. Eu tenho sorte por ter forças de remar contra a maré e continuar trabalhando pelo o que eu acredito independente do que os outros pensem, por não ser conformista, nem fatalista mesmo diante das piores circunstâncias. E também chamarão de sorte eu ser dedicada para alcançar meus sonhos e fazer do impossível uma realidade possível.


Sim, eu tenho muita sorte, porque até quando me faltou saúde, não me faltou trabalho, mesmo até quando me sobrou dor, não me faltou afeto, nunca me faltaram subs atenciosos, familiares amorosos, nem amigos sinceros.


Em 2020 quando eu decidi largar tudo para ser uma dominatrix eu tive medo do futuro incerto, de não conseguir sobreviver a minha escolha de exercer um trabalho em que é fácil de se começar e difícil de se manter, mas passado mais de um ano eu posso dizer que eu consegui chegar até aqui com sucesso.


Sou grata pelas minhas conquistas, não foram só sapatos, roupas, bolsas e botas caras. Ainda que fossem, eu iria me orgulhar por terem vindo com o fruto do meu trabalho. Mas para além da satisfação das contas pagas e do título de Miss Feet, que tenho a honra de carregar, eu não sei mensurar o quão importante é estudar e bancar a minha pós-graduação. Eu sei que é um privilégio nesse país e quando uma mulher trabalha com o seu corpo, como eu, tem que lidar com um monte de gente hipócrita que insistentemente tenta te desvalorizar, porque você nunca será boa o suficiente para eles por conta do seu ofício.


Ou você é jovem demais para saber alguma coisa ou velha demais para estar na ativa, magra demais para ser gostosa ou gorda demais para ser desejável, você sempre é considerada burra demais pra ter que ser puta ou foi esperta demais pra ter se tornado puta.


Eu sou uma dominadora e putafeminista, uma mulher inconformada com as desigualdades sociais, que abraçou essa palavra por resistência para reconhecer e humanizar a história dessas mulheres que têm tanto a nos ensinar.


O discurso putafóbico não pode ser normalizado e nem pode nos silenciar, quebrar o silêncio significa reivindicar o direito de existir de um grupo que historicamente tem sido silenciado. Sempre haverá pessoas para nos julgar, mas alguém precisa lhes dizer que ninguém é bom o suficiente para nos menosprezar e nos desrespeitar.


Tenho orgulho da jornada que trilhei sozinha com meus pés cansados em cima de saltos altos, porque ninguém estava ao meu lado nas madrugadas geladas em que me deslocava para hotéis e motéis do outro lado da cidade, nem nas que passei estudando e escrevendo até amanhecer, muito menos ouvindo comentários maldosos e recebendo olhares de reprovação em meu lugar.

Ninguém viu os sorrisos que se abriram para mim após as sessões, nem sentiu os abraços de gratidão, não sabem o que significa ouvir que a pessoa sentia que tinha lavado a alma, que aquela experiência era tudo que ela precisava e muito mais do esperava.... Ninguém sabe o que é estar do lado de cá e os porquês de eu continuar afirmando o meu sim para os meus desejos, apesar de lá fora dizerem não.


Confundem propositalmente a minha gentileza com fraqueza. Como pode uma mulher ser tão amorosa e dominadora? Bem, se você acredita que seu coração precisa estar cheio de ódio para fazer um bom trabalho, sinto muito por você, eu nunca precisei disso.


Também não preciso de permissão para falar ou escrever, eu tenho um lugar de fala bem definido de quem aprendeu a exercer um trabalho na vivência do próprio corpo e não preciso pedir licença para ocupar um lugar que é meu. Eu não sou só o meu trabalho, mas sou muito grata a ele, porque ele é parte da minha vida e hoje trago comigo toda força que ele me despertou, porque, sem dúvidas, a necessidade de ter que enfrentar o mundo para exercer meu ofício me fez mais forte.


Sigo meu caminho de cabeça erguida carregando um monte de histórias na mala pesada que levo pra lá e pra cá quando saio para dominar o mundo. Não sou mais a menina ingênua do início de 2019, nem tenho mais os mesmos medos de 2020, 2021 precisou virar meu mundo de cabeça pra baixo até eu me tornar uma leoa que luta com firmeza pelos seus objetivos.


Para 2022 tenho uma chance nova cheia de esperança e garanto: vai ter putafeminista falando, escrevendo, incomodando e lutando por Direitos Humanos, sim! Nós merecemos o mundo e ele também é nosso!




Photo: Mário Moreno


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