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  • Lady Brigitte

Como participar de um reality show me transformou?



Participar do reality show da Revista Sexy me transformou e eu estou aprendendo a lidar com o meu novo eu. Eu já me senti muito insegura, quando comecei na dominação tinha medo das consequências se a sociedade e meus colegas de trabalho descobrissem o meu prazer, até que fui exposta no meu trabalho e todo o mal estar veio com força, mas eu sobrevivi.


Depois lidei com a resistência da minha mãe quando fui fazer a minha primeira sessão profissional, com o drama que o meu pai fez quando mandou um amigo investigar o que eu fazia e descobriu o meu site e que a Brigitte já existia.


Em seguida tive que lidar com a ansiedade ao decidir sair do meu antigo trabalho e sobreviver do ofício de dominadora profissional. Ainda tive que conviver com a minha decepção de viver com o estigma, preconceito, discriminação e violências, descortinando o mito da vida gamurosa de uma dominatrix, que é vendida na internet.


Levou tempo até eu perceber que meu medo de não conseguir atingir meus objetivos profissionais e a cobrança por ter uma carreira de sucesso tinham feito eu correr tanto olhando para o futuro a ponto de eu ter perdido o presente, que é o sagrado da vida.


Um dia eu acordei e percebi que estava completamente sozinha, minhas relações afetivas estavam falidas graças à minha falta de dedicação à elas e à minha ambição de construir a Lady Brigitte. A minha maior ambição nunca foi financeira, eu não queria ser a mais rica, nem acredito nesse mito, mas eu queria ser a melhor no meu trabalho. Queria elevar a profissão a outro nível, ficava competindo comigo o tempo todo e queria aprovação.


Sim, eu queria aprovação, cada curtida, cada comentário, cada sub que dizia que eu era a melhor me fazia sentir mais validada e demorou muito tempo pra eu ver o quanto o meu ego estava sendo acariciado inconscientemente e que isso me fazia correr mais e mais. Até eu não ter mais saúde pra correr.




Não me perguntem sobre o quanto eu já gastei com tratamento médico e remédio nesse meio tempo em que comecei como dominatrix até hoje por conta da lesão nas mãos de tanto responder mensagem. Mas essa não é uma história sobre danos, aparentemente, menos com menos dá mais.


Ter lidado com todos esses desafios me fez mais forte. Não é colocar uma roupa de latéx e dominar um homem entre quatro paredes que me faz sentir empoderada. É ter passado por tudo isso e continuar afirmando o meu desejo de trabalhar com o meu corpo e como dominadora que faz eu me orgulhar de mim. Eu não quero voltar atrás, apenas seguir em frente sem mais ter medo do que pensam.


Ao aceitar o convite para participar do reality eu tive que lidar com a Lady Brigitte e a Bianca sendo vistas como a mesma em uma casa com mais 11 mulheres estranhas competindo pela capa da revista Sexy. Foi assustador lidar com a competitividade e agressividade de algumas participantes dispostas a topar tudo pela capa.


E eu toparia tudo? Definitivamente não. Ali foi meu momento de provação, tive que colocar os valores da Bianca acima da vontade da Brigitte. Eu pensava: Se a capa vier, ótimo! Senão, foda-se. Eu não vou passar por cima de mim, nem de ninguém por conta um pedaço de papel ou pela validação do status de capa de revista. Eu sei que sou uma vencedora por de ter chegado até aqui e ter encarado tudo de frente.


Eu sou empoderada quando reconheço uma relação de poder como a que existe entre homens e mulheres e subverto a lógica deles tratando como trabalho um privilégio que eles acham que lhes pertencem, que é o nosso corpo, e toda força de trabalho que eu faço envolve.


Sou empoderada quando decido estudar sobre esse assunto e me posiciono defendendo outras mulheres que vivem em situação de vulnerabilidade e de trabalho precário. Quando eu uso todos os meus privilégios para lutar contra opressões com a minha maior arma, que é meu corpo inteiro.







Ter colocado a Bianca pra jogo no reality me lembrou da performance da Marina Abramovic em que o público podia fazer o que quisesse com seu corpo nú, com vários objetos, desde uma rosa e até uma arma. A machucaram e ela não reagiu com violência, ela chorou, sangrou e se expôs desnuda em nome da sua arte.


De alguma forma eu me senti assim, ferida sem reagir em nome da Brigitte e do que ela representa. Pra desmistificar essa imagem estereotipada que considero ridícula de que uma mulher dominadora é uma mulher brava, mandona 24h, tive que me abrir e entregar o corpo e alma da Bianca, mas sinceramente, eu não poderia ser diferente.


Eu me senti jogando meu corpo num tanque de tubarões prontos para me devorar. Como eu poderia sobreviver se não fosse pela palavra e pela coerência dos meus valores? Eu só poderia sobreviver se fosse eu mesma, comendo bolo enquanto malhavam, me vestindo de látex enquanto a lógica era quanto mais despida melhor.


A dor era enorme, as lágrimas escorriam no quarto sozinha, mas eu sobrevivi. E depois de enfrentar aquilo sinto que posso enfrentar qualquer coisa, qualquer ódio gratuito na internet ou na rua não me afetam mais. Qualquer injúria, calúnia, inveja, nada disso afeta mais a Bianca.


Quando coloquei a Bianca em cena sem o escudo da Brigitte eu percebi que a Bianca pode aguentar toda a pressão e fazer uma limonada com os limões mais azedos que a vida me der. Virei o jogo quando me permiti fazer amigas e me mostrei. No primeiro dia foi difícil, me abalei e fui mal nas provas.Talvez a vida não seja justa quando envolve relações econômicas de poder, mas acho que é justa enquanto as recompensas são o que a gente não vê. E Deus sabe como eu tentei ser a minha melhor versão até hoje.


Em âmbito privado, continuo sendo introvertida, tenho dificuldade de socializar, inseguranças e a ansiedade insiste em me acompanhar. Acho que me apeguei à solidão, mas juro que estou tentando não me identificar com ela.







Não ganhei o reality, mas ganhei o prêmio de empoderada e lendo o último texto que eu escrevi antes de sair o resultado estou achando graça, porque eu mesma usei essa palavra, uma palavra já banalizada, mas que tem tanto significado.


O empoderamento feminino é constituído de ações tomadas por mulheres que não se deixam ser inferiorizadas pelo seu gênero e tomam atitudes que vão contra o machismo imposto pela sociedade. É um movimento de emancipação coletiva e individual, cuja busca é ter domínio sobre a própria vida.

Realmente, uma mulher que em um reality show chamado Casa das Pimentinhas se recusa a comer pimenta, que coloca a saúde em primeiro lugar em um programa em que ninguém quer se indispor com o diretor, e ainda ganha prova, que deixa claro que não topa tudo pelo prêmio, que não passa por cima de si nem das outras participantes, faz todo sentido.


O programa acabou, mas eu vou continuar na luta por espaço e respeito, pela igualdade de gênero, pra ainda poder ver mudanças nas relações políticas, sociais e culturais. Eu sou a mudança que eu quero ver e o poder é todo meu!


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