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  • Lady Brigitte

A justiça é cega e a sociedade também é quando quer.

Atualizado: 1 de mar.





Invisíveis quanto aos nossos direitos, nós, dominadoras profissionais, andamos por aí sempre na mira de olhares maliciosos. Ao entrar de madrugada em uma padaria descolada no bairro do Jardins, observo na face de homens e mulheres expressões que vão do desejo ao nojo por mim.


Meu sobretudo ali parece não servir para cobrir o figurino de látex, mas para revelar minha diferença no habitat natural da sociedade paulistana. Me pergunto: O que será que me delata? Será a mala?


Não pode ser, porque se fosse só isso eu seria apenas como uma viajante apressada, mas eu não sou. Eu sou como a noite, meu destino é viajar por São Paulo e encontrar com desconhecidos para sessões, após o trabalho não ando com pressa de salto alto.

Estou fisicamente cansada, e na madrugada gelada tudo o que eu quero é só uma xícara de café com leite e chocolate para me aquecer antes de ir para casa dormir com o sol. Me sento em um sofá estofado confortável e peço meu capuccino preferido.


- Chegou o meu momento! - penso.


Espero silenciosamente quando percebo ser metralhada por olhares que vem e vão, de jovens, adultos e velhos, alguns pescoços se quebram, outros me encaram fixamente, alguns ousam comentar... Eu sempre olho de volta, mesmo incomodada essa é a tática que eu desenvolvi para intimidar os predadores que insistem em violar meu momento íntimo, que era para ser de lazer.


Continuo a esperar a idealizada e acolhedora xícara quente por cinco minutos, ou foram cinco horas? Aguardo ansiosa aquela que é única capaz de me fazer relaxar, mas tudo ao redor é tensão e quando ela chega, sinto na boca o gosto do café morno com a raiva forte e perco a vontade de ficar.


Engulo inconformada o que não me desce e saio rápido, queria muito que esse desconforto todo fosse só coisa da minha cabeça de mulher criada pra casar e procriar que renegou tudo para trabalhar com você sabe o quê.


Queria que ao verem dominadoras tomando café o descaso das pessoas fosse tão grande quanto é o do Estado, e delas mesmas, a respeito de leis trabalhistas e direitos humanos que nos amparem. Mas dizem que é impossível não nos notar, que chamamos muita atenção, somos entretenimento adulto ao vivo e gratuito andando pela cidade. É bom demais pra ser verdade!


A sociedade vê o que quer, então quem tiver olhos que veja: Como qualquer ser humano, queremos poder tomar uma xícara de café após o trabalho em paz, mas essa paz é mais um direito que nos é negado.


- Afinal, quem nos nega?




Photo: Mário Moreno


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